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João Maurício shared an idea in Associação Ateísta Portuguesa on January 24, 2009 23:56:
Fé versus RazãoFé versus Razão
A espécie humana, ao adquirir a capacidade cerebral de indagar sobre o mundo e sobre si mesma, iniciou uma grande jornada na busca de descobrir o significado das coisas.
Actualmente, com o desenvolvimento da ciência, já conseguimos explicar muita coisa. Exemplo: o porquê de termos dia e noite (movimento de rotação da terra). Mas ainda não conseguimos explicar muita coisa, inclusive sobre a origem da vida.
Se voltarmos aos primórdios da humanidade, quando começamos a formular as primeiras indagações, não tínhamos as ferramentas de que dispomos hoje. Claro que a tarefa era colossalmente maior. E claro que não conseguíamos a resposta para a maioria das questões. O que fazer então para aplacar a necessidade dos humanos para explicar tudo; para achar um sentido para as coisas e, fundamentalmente, um sentido para a nossa existência? Fácil!!! Inventarmos uma. Assim, ficava muito mais fácil enfrentar os desafios na luta pela nossa sobrevivência, num mundo ferozmente ameaçador.
É claro que estas explicações não surgiram de maneira fácil e abrupta. Não!!!! Elas foram surgindo progressivamente, à medida que a maneira como se relacionar com o desconhecido foi se aprimorando; concomitantemente ao nosso progresso no desenvolvimento de códigos para expressarmos nossas idéias: a linguagem falada.
Lidar com o desconhecido era assustador e, consequentemente, o basilar do nosso relacionamento com este mundo do inexplicável foi o temor. Daí a nossa postura submissa em relação às forças e mistérios. Está surgindo a religião.
Este "relacionar" com o inexplicável vai se tornando mais aprimorado e ganhando força e cada vez mais importância no seio daqueles grupos primitivos. Vai se tornando organizado e com rituais cada vez mais complexos. Surgem os deuses. Os dirigentes destes rituais se tornam figuras cada vez mais importantes e influentes nos grupos. Surgem os sacerdotes.
Os sacerdotes vão aprimorando cada vez mais o conjunto de rituais e conceitos que a partir de agora devem ser seguidos pelo grupo no relacionamento com o desconhecido, o agora SAGRADO.
Os sacerdotes são os responsáveis por "zelar" pelo bem-estar do grupo na relação com o sagrado, Deus (ou deuses), a fim de aplacar sua ira e quem sabe, até contar com sua bondade e protecção.
A partir de então, ao nascer, o indivíduo já recebia este conjunto de regras e dogmas que lhe era transmitido pelo grupo através da linguagem (comunicação); esta cada vez mais aprimorada. Portanto, o sagrado, a religião, agora já era parte integrante do "saber" daqueles grupos primitivos e era seu "escudo" para congregar seus membros e proteger sua integridade e segurança. E assim tem sido até os nossos dias.
É claro que os tais rituais, os dogmas e todo o resto que envolve a prática religiosa evoluíram bastante e, o que temos hoje é bem mais sofisticado. Porém, uma coisa permanece igual. O temor!!! Este que foi o início de tudo; que deu início a desesperada saga do homem por explicar aquilo para o que não tínhamos resposta. Este sentimento de medo ainda permanece arraigado no coração da grande maioria das pessoas, no mundo todo, em que pese já termos as respostas para grande parte daqueles mistérios que nos assombravam no passado.
Mas como foi então que conseguimos alcançar algumas importantes respostas para uma grande parte das nossas indagações, se criamos uma maneira de saciar nossas dúvidas e acalmar nossos corações, a religião? Como foi possível enxergarmos outras explicações, senão aquelas dadas pela religião? É simples: porque parte das pessoas, desde nosso mais remoto passado, não se contentou com aquela maneira de ver as coisas; suspeitaram sempre que haveriam outras explicações; que apesar de aparentemente serem questões insolúveis, com muita observação e experimentos, talvez se alcançasse respostas. Surgia a ciência. Um método baseado na experimentação, na busca da verdade através das evidências. As evidências eram colocadas sob a experimentação e testadas exaustivamente até conseguir princípios que nos colocava cada vez mais próximos da verdadeiro significado das coisas.
Graças às pessoas que se dedicaram à busca pela observação, pela pesquisa, a humanidade rapidamente se distanciou dos demais animais e deu passos gigantescos rumo ao progresso. Hoje, já não vivemos mais em cavernas, mas em modernas casas com materiais sofisticados; com sistemas de ar condicionado central; água encanada; luz eléctrica; redes de esgoto, etc. Nossos meios de transportes evoluíram vertiginosamente. Já não dependemos tão somente de nossas pernas para nos locomovermos; e os animais já são uma força de tracção cada vez menos necessária aos humanos; inventamos o motor a combustão; o motor eléctrico e os carros, cada vez mais eficientes. Nas comunicações, aprimoramos nossos códigos de linguagem: estudiosos foram aprimorando tais códigos e chegamos à escrita; à impressão da escrita (o surgimento da imprensa). O ser humano pôde, com esta maravilhosa ferramenta da linguagem, planear cada vez melhor suas acções, tanto individuais quanto colectivas, o que permitiu avanços avassaladores em todas as áreas do conhecimento humano. A luta por alimentos agora já era bem menos dispendioso, pois graças às pesquisas, podemos domesticar animais para nosso consumo, ao invés de ir caçá-los directamente na natureza; com a agronomia, podemos cultivar cereais, frutas e tudo o mais que precisamos sem ter que depender da colecta directamente na natureza. Enfim... Graças àquelas cabeças que decidiram ir pelo caminho mais dispendioso, o dá busca pelo saber, pelo conhecimento, apesar de ter custado muito, produziu frutos maravilhosos que determinam todos os aspectos de nossa vida moderna.
Mas então, como explicar o facto de que a maioria da população ainda continua precisando da religião para explicar as coisas. Para encontrarem um significado para a vida e mais, justificar o origem da mesma? É simples: a maioria de nós recebemos as explicações sobre a vida e seu significado através da família, que transmite a explicação religiosa; esta que foi transmitida de geração em geração; menos dispendiosa e que não necessita de maiores esforços intelectuais; que é bastante incentivada por instituições e um modelo de produção e distribuição das riquezas que tira proveito desta visão da vida e que, por isto, a promove, reforça. Quando chegamos a fase adulta, estes "ensinamentos" já estão de tal forma forjados em nossas mentes que, dificilmente, conseguimos enxergar outra maneira de explicar a vida, o mundo. E passaremos isto aos nossos filhos.
Outro aspecto importante para entendermos o porque ainda prevalece a religião reside no facto de que, para a maioria das pessoas, o conhecimento científico não é acessível. Isto porque ou não tem conhecimento com o mesmo, pois isto depende também do grau de escolaridade; ou porque quando tem o contacto com o conhecimento científico já estão com a mente tão fechadas pelas explicações religiosas que não conseguem apreender outra maneira de ver a vida.
E os inegáveis progressos da humanidade, nada dizem para estas pessoas? Porque elas não enxergam que até mesmo os templos, maravilhas da ARQUITETURA, ou os sofisticados sistemas de som utilizados pelos pregadores, conquistas da ELECTRO-ELECTRÔNICA, são conquistas da observação do homem ao meio físico, da natureza, ou seja, são conquistas da ciência? A resposta é simples: já nascemos com estes avanços, ou com a maioria deles. Portanto, isto parece natural; não conseguimos enxergar a coisa com a perspectiva histórica e muito menos conseguimos vislumbrar os esforços fenomenais empreendidos em pesquisas para conseguir alcançar estes avanços. Assim, não temos estes progressos como parâmetros para fazer uma análise apropriada da situação. Além disso, outro importante aspecto a ser observado: enquanto a religião apresenta tudo pronto e acabado: Tudo o que existe foi por vontade de um CRIADOR, e basta ser temeroso e obediente e tudo estará bem; a ciência continua atrás de respostas, pois como se baseia na observação, experimentação para daí tentar alcançar respostas, sabe que ainda está apenas começando o seu trabalho, pois a dimensão do universo e a complexidade da vida vai continuar exigindo um gigantesco esforço para sua compreensão. Portanto, é bem mais fácil aceitar aquelas explicações que já estão cravadas no nosso interior desde que nascemos, pois são bem mais simples e seguras; do que tentar compreender as complexas explicações dadas pela ciência, além de ter que admitir que esta não encontrou respostas para grande parte dos mistérios.
Portanto, apesar da vida moderna estar profundamente dependente da ciência (televisão, frigoríficos, internet, carros, telemóveis, etc...) a maioria da população ainda guia sua vida pela fé.
Fé, esta palavrinha que significa basicamente uma coisa: que acreditemos naqueles dogmas que a religião nos legou; naquelas explicações surgidas gerações após gerações e nos pede apenas para acreditar, sem pedir explicação; pois que pedir explicação é não ter fé. E não ter fé é uma coisa muito feia, já que a maioria a tem. Logo, estamos proibidos de não ter fé. Se formos cépticos, estaremos ameaçando o mundo daqueles que têm fé, pois estaríamos obrigando os mesmos a reformularem sua visão sobre a vida; isto seria muito doloroso. Logo, existe uma verdadeira patrulha por parte da maioria das pessoas para que o indivíduo aceite as explicações, ou tentativas de explicar, sem questionar sua veracidade. Isto é fé.
Em contra-partida está a razão: aquela mesma velha, teimosa e solitária tentativa de achar uma explicação para as coisas através da dúvida, do experimentar; a mesma razão que tirou a humanidade das cavernas e lhe deu a liberdade para se impor sobre todos os demais seres vivos do planeta; a mesma razão que insiste em enfrentar os novos desafios que nos são colocados neste momento.
Esta razão sempre desafiou e incomodou aqueles que não querem enxergar a verdade; a mesma razão pela qual muitos deram suas vidas, vítimas da arrogância e da prepotência daqueles que dominam as massas através de sua ignorância em proveito próprio.
Ao vivermos na obscuridão, não temos controlo de nossas acções, pois achamos que estamos protegidos por forças externas à nossa existência; que tais forças irão sempre nos proteger, nos resguardar contra todo o mal, como sempre fez em todos os tempos. Assim, não medimos as consequências dos nossos actos. Logo, estamos como que num navio a deriva, sem um destino certo, um rumo a seguir. Esta acção desordenada coloca a nossa própria espécie em risco de extinção. A busca desenfreada pelo lucro, pelo riqueza material sempre foi protegida, abençoada pela igreja. A conquista de outros povos pelos europeus foi sempre muito sangrenta e cruel, e autorizada e abençoada pela igreja. Pelo visto funcionou, pois as terríveis atrocidades que levaram ao extermínio de milhões de pessoas parece ter ficado impune.
Mas nossos recursos naturais têm limite e a humanidade, a caminhar na escuridão, está extrapolando estes limites. Assim, é imperativo que mudemos nossa postura perante a vida; que enfrentemos a realidade de frente, por mais dura que pareça, a fim de termos hipóteses de reverter o quadro de ruína eminente que se aproxima.
Devemos abandonar o acreditar sem evidências; nos afastarmos da fantasia que, apesar de aparentemente tão benéfica, é a raiz da maior parte dos nossos males, na medida em que nos entorpece e não nos deixa enxergar a realidade a fim de a mudarmos.
A razão, o tentar compreender como funcionam as coisas; o porquê pensamos desta ou daquela maneira, é nossa única e possível maneira de continuarmos avançando sem colocar em risco perder tudo.
Que a razão seja o pilar de nossa capacidade de sonhar; de buscar novos horizontes e expandir a nossa existência para muito além dos nossos actuais limites; e que a mesma razão nos conduza por caminhos iluminados pelo saber; para que saibamos aproveitar os maravilhosos recursos oriundos da natureza, do universo, sem colocar a nossa existência em perigo; que tangidos pela razão, possamos construir um modelo sócio-económico justo e fraterno.
Até a próxima.
João Maurício
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